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Antes do EU, O OUTRO Sobre o Nascimento e a Função que sustenta a existência
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ANTES DO EU, O OUTRO
Sobre o nascimento psíquico e a função que sustenta a existência
Fernanda Torres - Pscnlt
O bebê nasce sem saber que existe.
Isso não é metáfora. É estrutural.
Ele chega ao mundo em estado de desamparo absoluto, sem recursos psíquicos para organizar fome, dor, frio ou excesso de estímulo. Não há ainda um “eu” que experimente o que acontece; há apenas sensações que irrompem e invadem. O corpo está vivo, mas a vida psíquica ainda não se organizou como experiência subjetiva.
O erro comum é imaginar que o psiquismo emerge naturalmente de dentro para fora, como se fosse apenas uma etapa do amadurecimento biológico. Não é. A existência psíquica não se inaugura no organismo isolado, mas no encontro com um outro capaz de sustentar o excesso pulsional sem anulá-lo.
Nos primeiros dias de vida, algo decisivo acontece — ou falha em acontecer. O bebê só começa a existir como sujeito porque alguém o sustenta. Não apenas nos braços, mas no desejo, na voz, no olhar, no ritmo. É essa presença regulada que oferece ao corpo em caos uma primeira possibilidade de organização.
A função materna — exercida pela mãe biológica ou por quem a substitua de forma estável — não se reduz ao cuidado prático. Sua função essencial é traduzir. Receber um choro sem sentido e devolvê-lo como algo nomeável: fome, sono, desconforto, medo. Cada resposta suficientemente ajustada inscreve no corpo do bebê uma experiência silenciosa, porém estruturante: o mundo responde.
O bebê, nesse início, não distingue dentro e fora, eu e outro, corpo e ambiente. Não há sujeito que interprete a experiência; há um organismo atravessado por excitações. É a regularidade da resposta do outro que começa a desenhar os primeiros contornos do que, mais tarde, chamaremos de eu.
Quando o cuidado é suficientemente estável, o bebê não aprende apenas que será alimentado ou aquecido. Aprende algo mais fundamental: que a tensão pode ser suportada, que o excesso não o aniquila, que existe um intervalo possível entre a necessidade e sua satisfação. É nesse intervalo — nem imediato, nem abandonado — que a vida psíquica começa a se constituir.
Importa dizer: o bebê não nasce sem pulsão. O que ainda não existe é a organização do eu. A pulsão já está lá, exigindo descarga, sem mediação. É justamente por isso que a função do outro não pode ser nem ausente nem intrusiva. Presença em excesso também fere.
Quando o ambiente falha de forma brusca ou repetida — seja por ausência, imprevisibilidade ou invasão — o bebê não registra simbolicamente uma “falta”. Não há ainda um aparelho psíquico capaz disso. O que se inscreve é o colapso. Aquilo que não é simbolizado não se transforma em lembrança; torna-se marca corporal, padrão defensivo, modo precoce de organização do sofrimento.
Nessas condições, o sujeito não deixa de existir — mas passa a existir defendendo-se. A defesa vem antes da experiência. O falso ajuste ao ambiente substitui a possibilidade de sentir. O que deveria ter sido sustentação torna-se exigência precoce de adaptação.
Por isso, não é a simples presença que funda o psiquismo, mas a presença regulada: aquela que suporta o choro sem se desorganizar, que responde sem se antecipar, que acolhe sem invadir. A função materna não é eliminar a tensão, mas torná-la suportável.
A existência psíquica não coincide com o nascimento biológico. Ela começa quando o bebê pode experimentar, ainda que de forma rudimentar, que o mundo não o destrói ao ser convocado. Existir, no início, não é afirmar-se — é ser sustentado sem precisar se defender para continuar vivo
Fernanda Torres é psicanalista registrada na ABRAPLP.
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